quarta-feira, 15 de maio de 2019

A Usina de Reciclagem e o aterro sanitário de Timon

Por Engº Chico Leitoa

Em 1994, buscávamos solução para o problema do lixão localizado à margem da BR 316.  Discutimos a questão com a equipe de governo e com várias pessoas da comunidade. Daí, contratamos a maior autoridade do país em resíduos sólidos, Dr. João Tinoco, que atuava em Viçosa - Minas Gerais. Um Maranhense ilustre que dava palestra sobre o assunto em todo o Brasil e em vários países do mundo. Ele passou uma semana em Timon, acompanhado do Engenheiro Fernando Parente, seu colega de turma de engenharia em São Luís.


                                                Visita da equipe da Funasa

Depois de todo o levantamento feito por ele, concebemos uma solução definitiva. A construção de um aterro sanitário e uma usina de reciclagem e compostagem de lixo.

Compramos uma área de 103 ha. Entre a cerâmica livramento e o posto cinco estrelas que vai desde a BR 316 até o rio Parnaíba, que pertencia ao Médico Pedro Augusto Martins. Com o projeto debaixo do braço e com a ajuda do então Senador Magno Bacelar e do então Deputado Federal Nan Sousa, conseguimos aprovar na Funasa, parte do projeto, referente à Usina de Reciclagem, que ficou pronta no final de 96. Inaugurada em março de 97, já sob a administração de outro Prefeito, que não teve a mesma visão de futuro. A usina funcionou por três meses, foi abandonada e chegaram a atear fogo na sua estrutura, além do terreno ter sido doado para a secretaria de Segurança do Estado, com LEI municipal, aprovada pela câmara, para que fosse construído um presídio. A mesma “LEI” autorizou e foi doado o restante do terreno, para particulares e empresários.  Quando fui eleito novamente, impedi parte de tal brutalidade que seria implodir a usina e consegui junto à Imobiliária Rural, outro terreno, onde veio a ser implantado o projeto.


         Vistoria de técnicos do Meio Ambiente com Prefeito Chico Leitoa e Sr. Odilon

Ainda como Deputado Federal e já eleito Prefeito, encontrei-me dentro de um avião, com o então Ministro do Meio Ambiente, o também Deputado Sarney Filho e fiz um apelo para que resolvêssemos o problema, haja visto que já tínhamos a solução.

Poucos dias depois veio a Timon, o Engenheiro Antônio Borsino, Consultor do Ministério para definirmos a maneira de atacarmos o problema. Juntos, redefinimos o nosso projeto de gerenciamento integrado de resíduos sólidos. Dados compilados, dúvidas tiradas, inclusive com relação à recuperação da Usina, agora acrescida de poço tubular, reservatório de água, galpão de triagem, ampliação do pátio de compostagem e claro, a implantação do aterro sanitário, ai incluído a aquisição de um trator de esteira D6 de marca Fiat, zero quilômetro, tudo isso por 500 mil reais, sendo que R$ 50 mil de contrapartida do município.


Obra pronta, usina completamente recuperada, com tanque de recepção, esteira com os classificadores de todo material reciclável e finalmente o moinho para processar o lixo orgânico que após passar por um processo simples de aeração e compostagem, exposto no pátio por um período de 90 a 100 dias, o composto transforma-se em adubo orgânico, a serem utilizados na produção de alimentos saudáveis. Como tem lixo todo dia, todo dia, a partir do terceiro mês teria adubo orgânico. Os recicláveis separados na esteira (papel, plástico, vidro, metais, etc.) passaram a ser trabalhados no galpão próprio. Todo esse processo passou a ser operacionalizado pela cooperativa dos catadores de lixo, que devidamente organizados e treinados, e num lugar apropriado, passaram a ter uma atividade mais digna, enquanto algumas crianças identificadas no lixão foram acolhidas no Peti, reforçado por projetos sociais eminentemente municipais.

Já no final do mandato, recebemos a doação e montamos uma extrusora com o objetivo de pelotizar o material plástico para agregar valor, e partirmos para produção de cano, em princípio para esgoto. Já pensávamos também em começarmos a produzir papel higiênico, a partir do papel reciclável, num processo simples, onde seriam utilizados apenas uma prensa e um misturador. Na casa do Guri (que acolhia meninos de rua), a partir do papel reciclado, os meninos e meninas em estado de risco, ali atendias, passaram a produzir belas encadernações.

Finalmente o aterro sanitário, implantado com tecnologia moderna e contando com trator de esteira para dar o devido tratamento (empastelamento), com os dutos para decantação do xurume e expedição de gazes, que futuramente poderia ser aproveitado até na produção de energia. Tudo isso reconhecido de forma elogiosa, num relatório do Dr. Borsino quando do recebimento da obra, que apurava também, denúncia de uma autoridade local, junto ao MMA, e que, por maldade ou desconhecimento, confundiu o pátio de compostagem, anexado à usina, com o aterro sanitário que ficava a 500 metros da mesma.


Com as licenças ambientais de implantação e funcionamento, tudo passou a funcionar e o lixão da margem da BR desapareceu. Além de vários aspetos positivos, fomos dados como exemplo pela Infraero em evento que tratava da segurança do espaço aéreo, pela solução encontrada e da eficiência das medidas adotadas no tratamento dos resíduos sólidos, claro no que diz respeito à presença de urubus, que põem em risco as aeronaves.


Quantas escolas públicas e privadas de ensino fundamental e médio e até da Universidade Federal do Piauí, fizeram visitas de estudos àquele complexo!… Algumas vezes acompanhei com muito orgulho aquelas visitas. Muitos representantes de outros municípios, inclusive de outros estados, também vieram olhar o seu funcionamento.

Deixamos um convênio assinado com a Funasa, de um programa denominado saneamento ambiental, acessado pelo então Deputado Luciano Leitoa, cujos recursos no valor de r$ 600.000,00, só foram liberados na gestão (seguinte, em 2005), para aquisição de equipamentos (caminhões coletores, trator de pneus etc.) que se juntariam ao único caminhão compactador adquirido, recebido no último dia, do nosso primeiro mandato. Tudo no sentido de garantir o funcionamento pleno do complexo, buscando sua sustentabilidade no futuro.


Tudo isso, porém, foi por água abaixo, a usina novamente abandonada, roubaram o trator e o aterro virou lixão.

Vale dizer que o aterro foi projetado para funcionar por 60 anos, com o remanejamento na metade do período. A usina, por tempo indeterminado, com a evolução do passo seguinte que seria a coleta seletiva, nos moldes de Curitiba, onde tive acompanhando aquele sistema exemplar.

Ai estaria concluído o chamado gerenciamento integrado de resíduos sólidos, e garantida finalmente a sustentabilidade do sistema.


Lamentavelmente, o que poderia ser um exemplo para saúde pública e para a economia do município, gerando muitas oportunidades, tanto na cooperativa dos catadores, na reciclagem, como nas hortas comunitárias, que poderiam compor um cinturão verde de produção de alimentos, além das indiretas, e passou a ser um mau exemplo de desperdício de um bem público importantíssimo. Imagem triste de uma montanha de lixo a céu aberto, aterro submerso e usina completamente comprometida. Abandonada, em duas oportunidades. Como consequência imediata, os catadores que haviam passado a trabalhar no galpão de triagem e no pátio de compostagem, organizados em cooperativa, uniformizados e com direito a alimentação, voltaram a competir com os urubus no lixão.

 

                   Dona Beta entregando cestas básicas

Quando o Prefeito Luciano assumiu em janeiro de 2013, a situação era caótica e o mesmo teve que se virar para conseguir um outro lugar para destinar o lixo.

No local do lixão, e em áreas adjacentes que foram desapropriadas, o Prefeito teve que investir mais de 6 milhões de reais com desapropriações e o alto custo para retirada de milhares de carradas de resíduos acumulado e colocação de enzimas para que fosse ali implantado, o que hoje é um moderno Polo Empresarial. Deu-se um destino nobre a uma área que havia sido intencionalmente degradada.


Num rápido exercício de memória, podemos imaginar como seria hoje, todo esse conjunto funcionando, claro, com a constante manutenção e modernização?… Estaríamos passando um bom exemplo para o país. Quando o mundo inteiro se volta para as questões que interferem no meio ambiente.


Só para se ter uma ideia, estudos ambientais recentes, apontam, que em consequência do não tratamento adequado dos resíduos sólidos, em 2025 a quantidade de plástico nos oceanos, será maior do que a quantidade de seres vivos.


Lamentavelmente os insensatos viram as costas, e se recusam a dar continuidade a uma ação de governo tão importante!


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